Certa noite
acordei chorando.
Meus olhos o buscavam com muita ânsia de encontrá-lo.
Quando mais que rapidamente, entraste pela porta adentro com
a respiração bastante ofegante vindo em minha
direção.
Recordo-me que te abracei e de olhos ainda fechados, não
sabia o que te dizer, apenas te sentia bem próximo a
mim. E minhas lágrimas cessaram com a sua presença.
Ainda me recordo das balas trazidas por ti, em suas viagens.
Da chegada sempre acompanhada de um abraço, do suor em
tua face e da alegria de retornares ao lar. E quando me olhava
com o ar sério para me chamar a atenção,
terminava querendo saber de tudo já estava bem.
Recordo-me também de uma única vez que te vi chorar.
Foram lágrimas, mas que hoje talvez, entenda o motivo.
Excesso de amor e aí o tempo passou, passou, e tu continuas
aí me observando, me esperando gritar teu nome. Sempre
de prontidão.
Só que hoje pai, eu cresci. Não só no tamanho,
mas na idade também. Os olhos ainda são pequenos,
mas meus sonhos são maiores. E mesmo sabendo, que estás
aí, quero hoje caminhar bem teus braços a me amparar.
Quero tropeçar e depois continuar, quero cair e depois
levantar, quero chorar e depois sorrir, quero perder e depois
ganhar, quero correr o mundo e voltar ao ponto de partida.
Quero simplesmente errar para depois acertar.
Quero brigar para depois amar, quero sentir frio e depois sentir
calor.
Quero me molhar para depois me secar, quero olhar para você
e dizer não somente pai, mas poder dizer junto deste
pai um pai amigo.
Eu cresci pai. Mas ainda te tenho tão próximo
a mim, que tenho medo de que me vejas chorar e corra novamente
ao meu encontro. Que faças por mim o que sempre fizestes,
sem me deixar “tropeçar, cair, chorar, perder,
não ser, correr o mundo, errar, brigar, sentir frio,
molhar, olhar, para você?”
Por isso pai, também depois de grande só me vistes
chorar como você uma única vez. E ainda, depois
de ter parado a infância, a adolescência e ainda
a fase adulta que me encontro, talvez ainda tenha que esperar
a velhice, para ter a coragem de dizer que te amo.
E aí pai estaremos ambos bem velhinhos e choraremos juntos,
talvez lamentando o tempo que passou e que não tivemos
coragem de nos dizer verbalmente que nos amávamos. Porque
apenas demonstrávamos através de atos (creio que
você, mais do que eu) que nos amamos.
E sem tua fantasia de Super Homem protetor de seus filhos, choraremos
de emoção e nos abraçaremos dizendo “Te
Amo”. Obrigado meu pai. E desculpe-me por me achar grande
para não te preocupares mais comigo.
Dedicado a todos os pais, que se fazem presentes na vida de
seus filhos e com o excesso de amor, os tornam esperançosos
por serem grandes e de quererem correr riscos, com a certeza
de vencerem no final.