É inconcebível falarmos
em literatura de cordel sem levarmos em conta o contexto histórico.
Apesar de a mesma ter suas raízes na Europa, e ter chegado
ao nordeste brasileiro em companhia dos colonizadores, seu enraizamento
no Brasil foi se entrelaçando com a cultura que se foi
formando. Mesmo um tanto acanhada, e às margens da literatura
propriamente dita, cultuada, e oficializada, o cordel se manteve
vivo ao longo dos tempos, como as plantas do sertão árido
que, de pouca água carece para alegrar o sertanejo de
tempo em tempo, e alertar os incrédulos de que a vida
é uma incógnita ainda a ser desvendada.
Em 1907, Leandro Gomes de Barros publicou no cordel “
Mulher Roubada” os seguintes versos:
“Leitores peço desculpas
Se a obra não for de agrado,
Sou um poeta sem força
O tempo tem me estragado,
Escrevo a dezoito anos
tenho razão de estar cansado”
(BARROS, A Mulher Roubada.)
Baseando-se nesta
estrofe, é pertinente afirmarmos que Leandro iniciou
seus trabalhos como cordelista no ano de 1889, tendo, portanto
dezenove anos de idade, estendendo-os até 1918, ano de
sua morte. A necessidade da localização dessas
datas é essencial para relacionarmos a obra do Poeta
no contexto histórico socioeconômico e político
brasileiro. Nesse período de 1889 a 1918, o Brasil passa
por grandes transformações em todos os campos
sociais: fim da escravidão, proclamação
da República, Guerra de Canudos, Guerra do Paraguai,
podendo ainda incluir a grande seca que assolou o nordeste em
1915, e a primeira grande guerra mundial. Em paralelo com todos
esses fatos, o cangaço campeava o sertão fazendo
“justiça” com o ‘Parabelo’, criando
suas próprias leis, desafiando as autoridades, protegendo
e sendo protegido, pelos ditos “coronéis”.
Com todos esses episódios em pouco espaço de tempo,
a região nordeste enfrentava, na época, um grande
problema social. Assim como em outras literaturas, a literatura
de cordel, mais especificamente na sua forma informativa, fez
uso dos versos para noticiar, satirizar e criticar os acontecimentos
regionais, e até mesmo outros ocorridos em pontos mais
distantes da esfera que tangenciava o sertanejo. Sendo Leandro
um homem do seu tempo, soube com maestria aproveitar do farto
material de então para compor a sua imensa obra popular.
Contribuiu com o homem simples do sertão ora informando-o,
ora alegrando-o para fortalecer o que já fortalecido
era pela interação com o meio árido do
vasto sertão, como nos afirma Euclides da Cunha em “Os
Sertões”, que o homem sertanejo, é, além
de tudo, um forte. Se analisarmos a obra de Leandro mais profundamente,
trabalho esse que não se inclui aqui, mas que sugiro
sem perda de tempo aos meios acadêmicos veremos o recontar
da história desse período escrita em versos, tendo
Leandro Gomes de Barros como um “grande repórter”
dessa história. Como fica claro nas palavras de Mark
Curran, estudioso americano que fez uma coleta na literatura
de cordel, tendo-a como material informativo, para escrever
a história do Brasil em Cordel.
“E rapidamente
descobri que aquela literatura, até então pouco
prestigiada e de fato humilde, narra a história do Brasil
tão bem quanto os livros de história, os romances,
a poesia, as peças dramáticas, e que as ilustrações
de capa dos folhetos são tão reveladoras quanto
a arte, a fotografia, o diapositivo ou o filme.”
(CURRAN, História
do Brasil em Cordel, p.12)
Mais de cem depois,
já no século XXI, e, com uma infinidade tecnológica
gerando a comunicação, o Cordel continua vivo
informando e noticiando, fazendo seu papel social como o fez
no passado. Fatos como a morte de Bin Laden, ou a velha tortura
social, atualmente chamada pelo termo “Bullying”,
já viraram versos. Cacá Lopes e Nando Poeta, lançaram
recentemente “Bullying: Uma Tortura Social”. Seguindo
por esse caminho, fecho esta matéria com uns versos do
meu mais novo cordel retrata o caso Osama Bin Ladem:
Retorno então
ao Bin Laden
Para poder melhor falar
O inimigo do Tio San
Foi seu amigo e par
Se tornou um terrorista
Viu-se riscado da lista
Dentro do seu próprio lar