Quem disse
que só as fadas encantam? O Cordel também encanta...
E olha que não tem varinha de condão, tem palavras
mágicas, rimas preciosas, enredos maravilhosos, e histórias
fascinantes. Ainda muito jovem me encantei pelos acanhados livretos
que viajavam em lombos de mulas enfrentando os obstáculos
das péssimas estradas para chegar aos mais longínquos
lugares, trazendo os contos de encantamento para encantar a
meninada. O cordel foi meu primeiro rádio, meu primeiro
jornal, minha primeira televisão, meu primeiro teatro.
Os anos se passaram, novas tecnologias foram aparecendo, mas
o cordel continuou ao meu lado me encantando. Hoje, quando vejo
a maior emissora brasileira de televisão com uma novela
trazendo no seu enredo a literatura de cordel, e mais, com o
título de “Cordel Encantado”, muito me alegar,
e faz com que a esperança que tenho , permaneça
viva, e dando vivas ao cordel. Há oito meses, quando
me propus escrever uma coluna para este jornal com temática
voltada para esta literatura, e ainda intitulada “Resgatando
Raízes. O Cordel vive, Viva O Cordel” eu bem sabia
que não estava sozinho. Apesar de a Literatura de Cordel
ainda não fazer parte obrigatória do currículo
escolar, fato esse que considero vergonhoso, levando em conta
sua relevância cultural, educativa e histórica,
por outro lado os poucos, mas belos trabalhos cinematográficos
como o “Auto da Compadecida”,(Ariano Suassuna) “Deus
e o Diabo na Terra do Sol”, (Gláuber Rocha), “O
homem que Desafiou o Diabo”, (Moacyr Góes) etc.
São provas concretas da qualidade literária da
literatura popular. “O Cordel Encantado”, atual
novela global das 6 horas, com certeza confirmará ao
povo brasileiro essa qualidade da literatura de Cordel, e porá
em âmbito o que grandes vultos da nossa literatura propriamente
dita já previam. O folclorista Luís da Câmara
Cascudo deixou claro sua posição em relação
à Literatura Oral, ao colocá-la no mesmo nível
da literatura tida como principal e verdadeira. Vejamos o que
disse Câmara Cascudo:
“Mas
a literatura oral interessou vivamente as pesquisas para as
origens da novelística. As grandes universidades nos
Estados Unidos incluíram a literatura oral nas suas cátedras,
no estudo de idiomas, antropologia, literatura comparada, ou
música, em Berkeley, Colúmbia, Harvard, Indiana,
North Carolina, Pennsylvânia, Princeton, Richmond, Stanford,
Etc.”
(...)
“Não é preciso argúcia para determinar
a importância da literatura oral nas ciências pedagógicas
e a experiência credenciada pela psicologia popular para
os conhecimentos administrativos”
(...)
“A literatura que chamamos oficial, pela sua obediência
aos ritos modernos ou antigos de escolas ou predileções
individuais, expressa uma ação refletida e puramente
intelectual. A sua irmã mais velha, a outra, bem velha
e popular, age falando, dançando, cantando, representando,
cantando no meio do povo,”
CASCUDO,
Luís da Câmara - História da Literatura
Brasileira -Literatura Oral. Páginas: 21 e 22.