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  Tin Tin Alves,
cel.(11)8983-8266
tintinalves@ig.com.br

O Cordel e O Antropomorfismo

Dando continuidade à matéria publicada no número anterior deste jornal, onde tratamos do termo Antropomorfismo, para aqueles que não leram a dita matéria, faço aqui de forma sucinta um resumo do que se tratou: O Antropomorfismo é um recurso de linguagem amplamente usado na literatura desde os mais primórdios tempos, no qual, é dado características humanas a animais, e/ou a quaisquer outros elementos, não com a finalidade de velar, criticar, satirizar um pensamento. O exemplo desse recurso citado foi utilizado com maestria por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), em “O Cachorro dos Mortos”, para velar sua crítica, e satirizar a justiça baiana que por incompetência, ou corroída pela “lei dos mais fortes”, foi incapaz de desvendar um crime praticado por um rico, contra uma família humilde e pobre. Diante da incapacidade da justiça, o ´poeta de Cordel` se utiliza de um cachorro de nome “calar”, umas flores, e um gameleiro para solucionar o crime. Três anos após a fatalidade, e ainda sem solução, calar entra em ação, e só sossega quando o criminoso é preso e enforcado. Vejamos alguns tópicos da crítica, e como o autor fez uso desse recurso: “Em oitocentos e seis / Na província da Bahia / Distante da capital / Seis léguas ou menos seria / Sebastião de Oliveira /Ali num canto vivia”... Logo na primeira estrofe, o autor dá início a sua crítica ao determinar a distancia entre a capital e o local onde se deu o crime. Nos trechos citados a seguir, podemos bem notar os termos utilizados para dar as devidas características humanas ao cachorro, como: “Chorar”, “quem”, “abraçar”, “mãos no lugar de patas”, “querendo dizer”, “abraçou”, etc.:

(...) “Foi chorar ao pé da cruz / Que seu senhor tinha morrido” (...)

(...) “Fitava os olhos no céu / Como quem quer suplicar” (...)

(...) “Como quem dizia a Deus / Vem que eu não posso falar” (...)

(...)”Abraçou o general /Com desmarcada alegria /Como quem dizia: nesses /Encontrei o que queria”

(...) “Calar olhou pra ele / Cheirou-lhe os pés e gemeu / Botando o pão entre as mãos” (...)

(...) “Calar caiu bem cansado / Talvez querendo dizer: —General muito obrigado” (...)

(...) “Festejou o general /As pernas dele abraçou” (...)

Nos quatro versos a seguir, o cordelista vai mais longe e caracteriza o cachorro como um “Corpo Santo” termo utilizado pela Igreja Católica para “santificar” corpos encontrados intactos em suas covas. Vejamos: “Deitou encostado à cruz / Que tinha lá edificado/ Tinha morrido a três dias /E nem sequer estava inchado” (...)

A descrição do enterro do cachorro calar, se não estivesse vinculada ao texto, jamais imaginaríamos que se tratava de um cachorro, pois a descrição aponta para o enterro de um grande homem. Vejamos:

“Mais de duzentas pessoas
Assistiram enterra ele
Devido a grande firmeza
que tinha se visto nele
Muitas flores naturais
Deitaram na cova dele”

Obs: O livreto de cordel “O Cachorro Dos Mortos”, é considerado como o maior clássico da literatura de cordel publicado por Leandro. O texto que hoje temos foi baseado na terceira edição e publicado em 1919, por Pedro Batista, genro de Leandro, um ano após sua morte.


Tin Tin Alves
Nilton Francisco Alves
(11) 8983-8266
tintinalves@ig.com.br


 


EDIÇÃO 31





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