Dando
continuidade à matéria publicada no número
anterior deste jornal, onde tratamos do termo Antropomorfismo,
para aqueles que não leram a dita matéria, faço
aqui de forma sucinta um resumo do que se tratou: O Antropomorfismo
é um recurso de linguagem amplamente usado na literatura
desde os mais primórdios tempos, no qual, é dado
características humanas a animais, e/ou a quaisquer outros
elementos, não com a finalidade de velar, criticar, satirizar
um pensamento. O exemplo desse recurso citado foi utilizado com
maestria por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), em “O
Cachorro dos Mortos”, para velar sua crítica, e satirizar
a justiça baiana que por incompetência, ou corroída
pela “lei dos mais fortes”, foi incapaz de desvendar
um crime praticado por um rico, contra uma família humilde
e pobre. Diante da incapacidade da justiça, o ´poeta
de Cordel` se utiliza de um cachorro de nome “calar”,
umas flores, e um gameleiro para solucionar o crime. Três
anos após a fatalidade, e ainda sem solução,
calar entra em ação, e só sossega quando
o criminoso é preso e enforcado. Vejamos alguns tópicos
da crítica, e como o autor fez uso desse recurso: “Em
oitocentos e seis / Na província da Bahia / Distante da
capital / Seis léguas ou menos seria / Sebastião
de Oliveira /Ali num canto vivia”... Logo na primeira estrofe,
o autor dá início a sua crítica ao determinar
a distancia entre a capital e o local onde se deu o crime. Nos
trechos citados a seguir, podemos bem notar os termos utilizados
para dar as devidas características humanas ao cachorro,
como: “Chorar”, “quem”, “abraçar”,
“mãos no lugar de patas”, “querendo dizer”,
“abraçou”, etc.:
(...) “Foi
chorar ao pé da cruz / Que seu senhor tinha morrido”
(...)
(...) “Fitava
os olhos no céu / Como quem quer suplicar” (...)
(...) “Como
quem dizia a Deus / Vem que eu não posso falar”
(...)
(...)”Abraçou
o general /Com desmarcada alegria /Como quem dizia: nesses /Encontrei
o que queria”
(...) “Calar
olhou pra ele / Cheirou-lhe os pés e gemeu / Botando
o pão entre as mãos” (...)
(...) “Calar
caiu bem cansado / Talvez querendo dizer: —General muito
obrigado” (...)
(...) “Festejou
o general /As pernas dele abraçou” (...)
Nos quatro
versos a seguir, o cordelista vai mais longe e caracteriza o
cachorro como um “Corpo Santo” termo utilizado pela
Igreja Católica para “santificar” corpos
encontrados intactos em suas covas. Vejamos: “Deitou encostado
à cruz / Que tinha lá edificado/ Tinha morrido
a três dias /E nem sequer estava inchado” (...)
A descrição
do enterro do cachorro calar, se não estivesse vinculada
ao texto, jamais imaginaríamos que se tratava de um cachorro,
pois a descrição aponta para o enterro de um grande
homem. Vejamos:
“Mais
de duzentas pessoas
Assistiram enterra ele
Devido a grande firmeza
que tinha se visto nele
Muitas flores naturais
Deitaram na cova dele”
Obs: O livreto
de cordel “O Cachorro Dos Mortos”, é considerado
como o maior clássico da literatura de cordel publicado
por Leandro. O texto que hoje temos foi baseado na terceira
edição e publicado em 1919, por Pedro Batista,
genro de Leandro, um ano após sua morte.
Tin Tin Alves
Nilton Francisco Alves
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